sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A sinfonia da solidão


Por Nilton Carvalho

Uma crônica baseada no caso do austríaco encontrado morto, seis meses depois, diante da TV...


A Sinfonia nº35 de Mozart ecoava em seu dó maior inconfundível vinda de algum lugar na pacata Salzburgo. Enquanto isso, a grande quantidade de cartas continuava a acumular na porta de Joseph, sem despertar a atenção dos vizinhos.

A cidade que atrai turistas de todos os lugares do mundo também esconde cantos solitários em que habitam pessoas esquecidas. Como fantasmas que vagam pelas ruas e, mesmo estando presentes, passam despercebidos aos olhares apressados dos cidadãos.

A vida de Joseph teve poucas mudanças desde que sua companheira Constanze se foi, há exatos cinco anos. Com a morte da esposa, veio também o abandono dos familiares.
O filho Weber era o único membro da família que ainda aparecia, mas logo após o nascimento dos gêmeos, as visitas se reduziram a datas de aniversário e Natal.

O pragmatismo das visitas do filho e a triste solidão dos últimos dias, de nada se pareciam com os tempos em que viveu com Constanze. A alegria que os visitantes encontravam em Salzburgo, cidade natal do gênio da música clássica Mozart, não fazia mais parte da vida de Joseph. Agora sua nova companheira era a televisão. Assistia sempre aos mesmos programas, alimentando seus dias com frieza e solidão na cidade medieval.

Nos últimos meses os vizinhos já não viam o velho Joseph, pensavam que ele talvez tivesse ido passar um tempo na casa do filho ou levado para algum asilo. Na verdade, ninguém jamais se importou em saber o motivo que levou o velho a desaparecer, todos tinham seus compromissos e deveres e não podiam perder tempo com assuntos de menor importância.

Mas a grande surpresa, é que Joseph não estava mais naquele apartamento há muito tempo, precisamente seis meses. A televisão foi sua companheira fiel e permaneceu ligada durante todo esse tempo assistindo Joseph desistir de viver.
Afinal, a vida parecia ter acabado no dia em que Constanze morreu e em seus últimos dias, Joseph apenas aguardava o momento de poder descansar ao lado dela. E assim fez, ao som de Requiem, a derradeira sinfonia da solidão.

Um comentário:

  1. E não é que você REALMENTE escreve que nem gente grande? ;)

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